quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Leitura e leitura

Amélia é que era mulher de verdade....
“Quando eu estava de viagem te roguei para admoestares a certas pessoas, a fim de que não ensinem outra doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem discussões do que o serviço a Deus, na fé.
Ora, o intuito da presente admoestação visa o amor que procede do coração puro, e da consciência boa, e de fé sem hipocrisia...
Este é o dever de que te encarrego, ó filho Timóteo...: combate o bom combate, mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé”. 1Tm 1: 3 a 5 e 18, 19.

O bom combate é combatido no guardar a fé tendo boa consciência.
Guardar a fé só é possível se conhecemos a Pessoa em quem confia. Essa é a boa consciência. Conhecendo a Deus estamos certos de Seu caráter e, por isso, podemos confiar sob quaisquer circunstancias, e não somos levados pelo engano do que se fala d’Ele por aí os que não O conhecem nem O querem conhecer.

Vou tentar ilustrar o que estou afirmando.
Principalmente nos dias em que vivemos e no Brasil sabemos muitas coisas as quais não conhecemos verdadeiramente.
Nesse mês em que se comemora o centenário de Mario Lago assisti a uma de suas entrevistas no programa Conexão Roberto d’Ávila. E que surpresa gostosa!
Todo nós conhecemos sua composição “Amélia” que só ouvimos alguém cantar se for em tom de deboche ou crítica a uma situação de opressão social.
“Amélia é que era mulher de verdade, Amélia não tinha a menor vaidade, ................... achava bonito passar fome”´.
Quantas críticas já ouvi, quanto deboche, quantas teorias criadas em cima de seus versos. Na Universidade então... onde as pessoas falam muito e teorizam sobre o que não conhecem...
Confesso que a letra sempre me soou mal. Eu achava que não combinava com seu autor. Usava dela na brincadeira, mas sempre com uma interrogação na cabeça.
Quando o próprio compositor, numa entrevista agradável e inteligente ao Roberto d’Ávila, falou sobre a música a letra tomou outro formato para mim. Estabeleceu-se a coerência que faltava, para mim, entre o criador e a criação.
Ele disse que se surpreendia com a repercussão deturpada de seu significado. A composição é a descrição do amor verdadeiro, da paixão. Quando se está apaixonado, as coisas tomam outra dimensão. O que antes era penoso, nesse momento, já não é tão sofrido. “Fala sobre amor e entrega. Não diz que ela tinha prazer em passar fome, mas que ela o amava tanto que se fosse preciso passaria fome a seu lado. Não deixaria de amá-lo por isso e nem o deixaria”. Contou ainda que viveu períodos como esse com sua esposa. Os tempos das ‘vacas magras’ não conseguiram abalar seu amor e seu casamento, mas, ao contrário, os uniu ainda mais.

“Desculpe, morena Marina, mas eu estou de mal”.

“Marina”, na ginga baiana e sensual de Dorival Cayme... Quem já não dançou, namorou ou apenas deu trato a sonhos doces e românticos ao som desse samba canção? Quantas vezes ouvi meu cunhado ao violão cantando gostosamente e com manha de namorador a “Marina” de Cayme. Pensamos na Marina morena que inspirou Dorival a compor esses versos. Quem teria sido? Uma namorada? Uma possível namorada? Uma inalcançável possível namorada? O que o levou a dizer que quando está bravo é incapaz de perdoar? Podemos imaginar mil  Marina e várias possíveis situações, todas enamoradas e cheias de meneios.
Hoje, no entanto, acordei às cinco da manhã e liguei a TV. E lá estava Dorival Cayme falando sobre inspiração. Explicava que as pessoas, em geral, pensam que a inspiração vem de divagações e de uma postura contemplativa e abstrata. Deitado na rede pensado entre um cochilo e outro e, de repente, a inspiração. Mas, ele afirmou que a inspiração pode vir de uma construção. Aí, então, contou de onde veio “Marina”.
Disse que seu segundo filho, o Dori, quando pequeno quando contrariado dizia: “estou de mal”. Um dia ele ficou pensando no “estou de mal”, “estou de mal”, “estou...” e cantarolou a frase: “estou de mal”, “estou...” E construiu a poesia. Não existiu nenhuma Marina, não se refere a nenhum enamoramento, mas às mal criações de seu filho. Depois dessa ‘revelação’ veja se a letra não trata exatamente de uma mal criação.
Conforme ele ia contando eu me desmanchava em risos e ‘ouvia’ meu netinho falando e fazendo o mesmo quando contrariado. “Eu estou muito mal com você... não vou emprestar meu carrinho de bombeiro pra você brincar”.
O que leva as pessoas a acharem que a inspiração é uma tão diferente do que a que moveu o coração do criador? O que leva as pessoas pensarem que o criador quis enviar uma mensagem tão diferente da original?
Falta de conhecimento.
Pegar uma obra pronta e ler a partir de nossos sentidos, afetos e intenções; de nossas realidades, capacidade de análise e de interpretação; de nossos objetivos em explicar uma situação e de justificar alguma coisa é possível e até pode levar a acréscimos sociais, culturais e políticos. Mas em todos os casos temos de deixar registrado que é uma leitura independente da intenção original do seu autor.
Mario Lago nunca fez uma canção defendendo e romantizando a submissão feminina aos caprichos de um homem mal resolvido, autoritário e sem amor.
Dorival Cayme nunca descreveu uma situação de desentendimento amoroso.
Essas interpretações vieram de uma leitura independente de seus propósitos e refletem uma conjuntura social e cultural, como crítica ou justificativa do que se pretenda. Leitura essa que pode mudar com o tempo. As ‘músicas clássicas, como chamamos hoje, e pelas quais em geral se tem um reverente distanciamento como se elas fossem ‘sacras’, em seu tempo eram tidas como profanas. Como os órgão que tocam nas igrejas, hoje, remetem a uma espiritualidade e a uma santidade tradicionais que não refletem sua história.

Acho que você já entendeu o que estou querendo dizer. Não podemos conhecer a Deus de ouvir alguém falar. Não é para um relacionamento cheio de intermediários, memorandos e recados que Deus nos chama. Jesus morreu na cruz e ressuscitou para nos dar livre acesso ao Pai. Para que tenhamos uma vida de comunhão com Ele.
Você quer conhecer a Deus? O que o pastor ou o padre ou o seu amigo dizem pode ser interessante e proveitoso, mas nada substitui o seu momento particular com Ele. O convite é para sentarmos com Ele num particular de Pai e filho.
Temos de querer conhecer o que Deus disse e fez e compôs como Ele realmente pretendeu que fossem. Deus não é um artista, um homem que expressou uma emoção que descreva seu desejo e seu pensamento num determinado momento conforme uma determinada circunstância que pode ser alterada e relida de várias maneiras.
Ele é o Criador da Vida. O Autor e Consumador de nossa fé. Ele é o Amor que surpreende, arrebata e transforma. Então, não dá para manter um relacionamento a distância com Ele. Ele é Pai e, como tal, quer conversar pessoalmente conosco, quer ter momentos de intimidade. Deus não é um deus que se relaciona com as massas. Deus é Deus Pessoal, Ele nos chama pelo nosso nome, nos toma pela nossa mão direita para nos conduzir, tem uma morada preparada para cada um em especial e tem um nome para cada um de nós escrito na palma de Sua mão.
Esse não é um deusinho qualquer.
Deus é Amor e quer revelar esse Amor, ou seja, a Si próprio a cada coração em particular.
Basta você dizer: “eu quero Te conhecer!”.
Leia a Bíblia. Ela não é um livro histórico, não é um manual de uso do homem, como alguns dizem, não é um livro de lei moral. A Bíblia é a Palavra de Deus. Eu disse “É” e, não, ‘contém ‘.
Todos os mistérios de Deus estão revelados em Cristo Jesus e Cristo é o Verbo, Ele é a Palavra de Deus.

Denise Gaspar - 05-12-11

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