“Quando eu estava de viagem te
roguei para admoestares a certas pessoas, a fim de que não ensinem outra
doutrina, nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim, que, antes, promovem
discussões do que o serviço a Deus, na fé.
Ora, o intuito da presente
admoestação visa o amor que procede do coração puro, e da consciência boa, e de
fé sem hipocrisia...
Este é o dever de que te
encarrego, ó filho Timóteo...: combate o bom combate, mantendo fé e boa
consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a
naufragar na fé”. 1Tm 1: 3 a 5 e 18, 19.
O bom combate é combatido no
guardar a fé tendo boa consciência.
Guardar a fé só é possível se
conhecemos a Pessoa em quem confia. Essa é a boa consciência. Conhecendo a Deus
estamos certos de Seu caráter e, por isso, podemos confiar sob quaisquer
circunstancias, e não somos levados pelo engano do que se fala d’Ele por aí os
que não O conhecem nem O querem conhecer.
Vou tentar ilustrar o que estou
afirmando.
Principalmente nos dias em que
vivemos e no Brasil sabemos muitas coisas as quais não conhecemos
verdadeiramente.
Nesse mês em que se comemora o
centenário de Mario Lago assisti a uma de suas entrevistas no programa Conexão
Roberto d’Ávila. E que surpresa gostosa!
Todo nós conhecemos sua
composição “Amélia” que só ouvimos alguém cantar se for em tom de deboche ou
crítica a uma situação de opressão social.
“Amélia é que era mulher de
verdade, Amélia não tinha a menor vaidade, ................... achava bonito
passar fome”´.
Quantas críticas já ouvi, quanto
deboche, quantas teorias criadas em cima de seus versos. Na Universidade
então... onde as pessoas falam muito e teorizam sobre o que não conhecem...
Confesso que a letra sempre me
soou mal. Eu achava que não combinava com seu autor. Usava dela na brincadeira,
mas sempre com uma interrogação na cabeça.
Quando o próprio compositor, numa
entrevista agradável e inteligente ao Roberto d’Ávila, falou sobre a música a
letra tomou outro formato para mim. Estabeleceu-se a coerência que faltava,
para mim, entre o criador e a criação.
Ele disse que se surpreendia com
a repercussão deturpada de seu significado. A composição é a descrição do amor
verdadeiro, da paixão. Quando se está apaixonado, as coisas tomam outra
dimensão. O que antes era penoso, nesse momento, já não é tão sofrido. “Fala
sobre amor e entrega. Não diz que ela tinha prazer em passar fome, mas que ela
o amava tanto que se fosse preciso passaria fome a seu lado. Não deixaria de amá-lo
por isso e nem o deixaria”. Contou ainda que viveu períodos como esse com sua
esposa. Os tempos das ‘vacas magras’ não conseguiram abalar seu amor e seu
casamento, mas, ao contrário, os uniu ainda mais.
“Desculpe, morena Marina, mas eu
estou de mal”.
“Marina”, na ginga baiana e
sensual de Dorival Cayme... Quem já não dançou, namorou ou apenas deu trato a
sonhos doces e românticos ao som desse samba canção? Quantas vezes ouvi meu
cunhado ao violão cantando gostosamente e com manha de namorador a “Marina” de
Cayme. Pensamos na Marina morena que inspirou Dorival a compor esses versos.
Quem teria sido? Uma namorada? Uma possível namorada? Uma inalcançável possível
namorada? O que o levou a dizer que quando está bravo é incapaz de perdoar?
Podemos imaginar mil Marina e várias
possíveis situações, todas enamoradas e cheias de meneios.
Hoje, no entanto, acordei às
cinco da manhã e liguei a TV. E lá estava Dorival Cayme falando sobre
inspiração. Explicava que as pessoas, em geral, pensam que a inspiração vem de
divagações e de uma postura contemplativa e abstrata. Deitado na rede pensado
entre um cochilo e outro e, de repente, a inspiração. Mas, ele afirmou que a
inspiração pode vir de uma construção. Aí, então, contou de onde veio “Marina”.
Disse que seu segundo filho, o
Dori, quando pequeno quando contrariado dizia: “estou de mal”. Um dia ele ficou
pensando no “estou de mal”, “estou de mal”, “estou...” e cantarolou a frase:
“estou de mal”, “estou...” E construiu a poesia. Não existiu nenhuma Marina,
não se refere a nenhum enamoramento, mas às mal criações de seu filho. Depois
dessa ‘revelação’ veja se a letra não trata exatamente de uma mal criação.
Conforme ele ia contando eu me
desmanchava em risos e ‘ouvia’ meu netinho falando e fazendo o mesmo quando
contrariado. “Eu estou muito mal com você... não vou emprestar meu carrinho de
bombeiro pra você brincar”.
O que leva as pessoas a acharem
que a inspiração é uma tão diferente do que a que moveu o coração do criador? O
que leva as pessoas pensarem que o criador quis enviar uma mensagem tão
diferente da original?
Falta de conhecimento.
Pegar uma obra pronta e ler a
partir de nossos sentidos, afetos e intenções; de nossas realidades, capacidade
de análise e de interpretação; de nossos objetivos em explicar uma situação e
de justificar alguma coisa é possível e até pode levar a acréscimos sociais,
culturais e políticos. Mas em todos os casos temos de deixar registrado que é
uma leitura independente da intenção original do seu autor.
Mario Lago nunca fez uma canção
defendendo e romantizando a submissão feminina aos caprichos de um homem mal
resolvido, autoritário e sem amor.
Dorival Cayme nunca descreveu uma
situação de desentendimento amoroso.
Essas interpretações vieram de
uma leitura independente de seus propósitos e refletem uma conjuntura social e
cultural, como crítica ou justificativa do que se pretenda. Leitura essa que
pode mudar com o tempo. As ‘músicas clássicas, como chamamos hoje, e pelas
quais em geral se tem um reverente distanciamento como se elas fossem ‘sacras’,
em seu tempo eram tidas como profanas. Como os órgão que tocam nas igrejas,
hoje, remetem a uma espiritualidade e a uma santidade tradicionais que não
refletem sua história.
Acho que você já entendeu o que
estou querendo dizer. Não podemos conhecer a Deus de ouvir alguém falar. Não é
para um relacionamento cheio de intermediários, memorandos e recados que Deus
nos chama. Jesus morreu na cruz e ressuscitou para nos dar livre acesso ao Pai.
Para que tenhamos uma vida de comunhão com Ele.
Você quer conhecer a Deus? O que
o pastor ou o padre ou o seu amigo dizem pode ser interessante e proveitoso,
mas nada substitui o seu momento particular com Ele. O convite é para sentarmos
com Ele num particular de Pai e filho.
Temos de querer conhecer o que
Deus disse e fez e compôs como Ele realmente pretendeu que fossem. Deus não é
um artista, um homem que expressou uma emoção que descreva seu desejo e seu
pensamento num determinado momento conforme uma determinada circunstância que
pode ser alterada e relida de várias maneiras.
Ele é o Criador da Vida. O Autor
e Consumador de nossa fé. Ele é o Amor que surpreende, arrebata e transforma.
Então, não dá para manter um relacionamento a distância com Ele. Ele é Pai e,
como tal, quer conversar pessoalmente conosco, quer ter momentos de intimidade.
Deus não é um deus que se relaciona com as massas. Deus é Deus Pessoal, Ele nos
chama pelo nosso nome, nos toma pela nossa mão direita para nos conduzir, tem
uma morada preparada para cada um em especial e tem um nome para cada um de nós
escrito na palma de Sua mão.
Esse não é um deusinho qualquer.
Deus é Amor e quer revelar esse
Amor, ou seja, a Si próprio a cada coração em particular.
Basta você dizer: “eu quero Te
conhecer!”.
Leia a Bíblia. Ela não é um livro
histórico, não é um manual de uso do homem, como alguns dizem, não é um livro
de lei moral. A Bíblia é a Palavra de Deus. Eu disse “É” e, não, ‘contém ‘.
Todos os mistérios de Deus estão
revelados em Cristo Jesus e Cristo é o Verbo, Ele é a Palavra de Deus.
Denise Gaspar - 05-12-11
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